Publicado por: Alisson Villa | 23/08/2010

Pequena carta voando perdida pela rua

Paulo querido,

Não te amo mais. Isto é fato. Consumado e que me consome. Na verdade, não te amo mais com a pouca intensidade primeira. Beira agora o inconcebível. Te amo mais e mais e mais. Se antes, meu amor equilibrava-se na pontinha dos dedos, hoje ele nem mesmo roça o chão – amor passarinho fugindo do alçapão.

Não te amo mais nas vinte e quatro horas diárias. Criei novo tempo: 274 horas para a rotação; 6.287 dias para a translação. Agora meu amor tem o tempo necessário para percorrer cada encanto seu. Cada canto seu. Sinfonia da liberdade amorosa. À noite poesia, durante o dia prosa.

Não te amo mais quando avisto seu rosto. Eu amo é o que dele tem de gosto. Lamber seus olhos, lamber sua orelha, lamber sua boca é ver você mais nítido. Meus olhos cegos de amor, minha língua repleta do seu sabor.

Não te amo mais quando diz que me ama. Amo mais quando me toma na cama. Um amor que se joga solto, que colide, que arrebata e, por fim, acalma. Como se rasgasse a pele para, enfim, encontrar a alma.

Paulo, definitivamente, não te amo mais. E te amo sempre.

Da sua,

Clara

Publicado por: Alisson Villa | 01/06/2010

Roteiro para um comercial qualquer

Cena 1 – Num pátio aberto, uma criança negra, corte de cabelo estilo Pelé, faz embaixadas e dá chapeuzinho no amigo usando uma bola de meia.

Cena 2 – No pátio do recreio, uma criança de pernas tortas, estilo Garrincha, faz dribles desconcertantes usando uma bolinha de papel. Os amiguinhos, claro, caem em todos os dribles, indo literalmente ao chão.

Cena 3 – Uma partida de futebol profissional. Campo lotado. O time de amarelo ataca. Depois que o goleiro não consegue cortar um cruzamento, a bola sobra livre para o camisa 9. Apenas ele e o gol. Mas o atacante mata a bola na canela e a pelota rola para a linha de fundo. A câmara se aproxima da bola, que para com a marca Adidas aparecendo. Então surge a seguinte sequência de frases na tela: “Infelizmente, ainda não descobrimos a tecnologia para fabricar craques”. “Adidas, a bola oficial da Copa 2010”.

Publicado por: Alisson Villa | 31/05/2010

O beijo

Um meteoro do tamanho do estado de Minas Gerais corta o céu em velocidade supersônica. Deve matar milhões. Deve derrubar o prédio de alguns bancos. Deve esmagar as flores na Praça da Liberdade. Mas não me importo com o futuro da humanidade. Espero apenas pelo seu beijo.

Minhas aplicações na Bolsa de Valores dispararam. Vou ganhar alguns trocados. Terei piscina e guarda-sol. Um carro importado e um valeiro. Capa da Forbs, convite para festas. Mas estou falido de tédio. Espero apenas pelo seu beijo.

John e Paul ressuscitam e mandam avisar: “Turnê dos Beatles para tocar na íntegra o Álbum Branco”. Olho para o ingresso entre os meus dedos mas, embora eu saiba que eu nunca vou perder o afeto por pessoas e coisas que vieram antes, em minha vida eu amo mais você. Por isso espero apenas pelo seu beijo.

Tomo Aspirinas, Buscopan, Lexotan e Fluoxetina. Me interno no CTI por alguns meses. Faço tratamento alternativo com acupuntura e florais. Tento Jesus, Buda, Diabo e Maomé. Mas, ainda enfermo, concluo que a cura chegará apenas pelo seu beijo.

Meu time perde, eu xingo. Meu time ganha, eu vibro. Perco meu tempo esperando apenas pelo seu beijo.

A mesa é grande. Os amigos agradáveis. A conversa flui. A comida é farta. A bebida desce. O entorpecimento sobe. Qualquer um gostaria de estar em meu lugar. Uma felicidade plena e sem arestas. Pois eu abro mão de tudo e me flagelo. Espero apenas pelo seu beijo.

Cientistas não compreendem e arrancam minhas células para estudo. Curandeiros tentam folhas mal cheirosas. Psicólogos recorrem a livros empoeirados em busca de alguma referência. Qual solução pode ser mais clara e objetiva do que o seu beijo?

Chego em casa exatamente às sete da noite. Tomo um banho quente. Me visto. Sento no sofá. Espero, espero, espero. A maçaneta da porta gira. Molho os lábios com a língua. Me levanto. O coração pulsa forte. Me aproximo. Você sorri, diz boa noite e me abraça. Devo ainda esperar pelo seu beijo?

Publicado por: Alisson Villa | 07/05/2010

…desbotando…

A tristeza nasce de um fino furo fosco que alguém planta no céu – eu sei porque já fui tristeza, já usei enxada e já fui réu. Montada em sua noite de beiradas frescas e silêncios úmidos, a tristeza procura o seu destino: um enfarto repentino; um amor sem espelho, a falha no conselho. E por mais rápidos que os passos passem pálidos, na fuga urgente para o dia, não adianta fingir, não somos poetas, não somos atores, pelo caminho nos desprendemos das cores.

Foto: Edu Moraes

Publicado por: Alisson Villa | 31/03/2010

A Melancolia

A melancolia é um filme sem trilha sonora
é o agora sem saber do amanhã
agulha solitária espetada em novelo de lã
é a chuva caindo lá fora
o choro caindo aqui dentro
centro vazio nas tardes de domingo
o desânimo inundando pingo a pingo
lugar para o cinza dizer: “por aqui eu entro”
A melancolia é whisky de poeta
seta rasgando o vento
uma mordaça beijando o lamento
é a tristeza politicamente correta

Publicado por: Alisson Villa | 25/03/2010

Poesia que se veste

Listras verticais, ora alvi ora negras, como um prenúncio de que a vida se alterna entre o simples e o obscuro; tomando o peito, do lado em que o motor de emoções trabalha seu dia, um desenho que poderia ser qualquer um, mas deu de ser único em seu significado de brasão; e por fim, sobre o escudo, como se estivesse em céu, brilha a amarela alegria de sermos os primeiros campeões do Brasil. Agora, me responda: isso é uma camisa ou uma poesia que se veste?

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